Tuesday, March 16, 2010

Id, o boca grande

Era uma vez o Id, um menininho feliz. O Id tem dois amiguinhos, o Ego e o Super-ego. O problema é que o Id tava muito cansado de ficar quietinho, guardar seus pensamentos para si.
Um dia apareceu uma colega no escritório. Aquela mulher podia ter a foto do lado do verbete "Verborréia" em qualquer dicionário. O Id, tadinho, não aguentava mais. Mas lá estavam os três amigos, na repartição. A mulher estava lá, com suas músicas explode-tímpano em pleno convívio público. O Id começou a ficar tonto...
- Ai Ego, por favor!! Deixa eu mandar essa mulher ouvir essa p(*) dessa música na casa do c(*)!!! Não aguento mais essa m(*), ah, Ego!!! Eu não mereço isso não!!
Ego tenta acalmá-lo:
- Que isso Id, você já passou coisa pior. Lembra aquela vez quando ela tava falando da filhinha dela, que é um anjinho, que nunca incomoda? Que ela gastou uma nota com a queridinha que ela faz questão de dizer o nome exótico tantas vezes?
- Para com isso Ego!!!! (Dizia o Id com o mesmo tom de voz da pobre mulher que queria o "Chip, Pedro!!!").
O Id começava a se contorcer, ele tava em seu limite. Começava a rir sozinho.
De repente a mulher, em pleno apogeu do mau gosto, ouvindo seu assim chamado sertanejo universitário:
- Ai, essa música me dá vontade de tirar a roupa!!
Pausa. O mundo de Id quase desaba. Seus olhinhos estão parados. O Super-Ego intervém:
- Deixa pra lá, garoto. Respiremos. Você não quer ser mal visto no ambiente de trabalho, quer? Quer que o chefe pense que seu espírito de equipe é nulo? Ele vai pensar que tudo aquilo que fizemos na sua entrevista de emprego era teatrinho, hein? E controlar você quando perguntaram "Por que você saiu do seu emprego anterior?" foi realmente arte, mas não podemos causar discórdia aqui. Não deixe nosso caráter em dúvida. Você consegue. Vamos pra sala de cópias pegar um ar, vai no banheiro, qualquer coisa.
O Ego também está fragilizado com o pobrezinho do Id...
- Fica tranquilo, Id. Vamos pedir pra ela baixar um pouquinho o som. Vai ficar tudo bem.
Depois de muito suar frio, o Id se acalma. Não está mais quase explodindo, pronto pra dizer "Sua filha não é tão bonitinha assim. Não acredito que você tem uma filha, a propósito. Você tem cara de mamão. Que homem ia te aguentar?"...
E lá foi o Id pegar mais um Rivotril.

Tuesday, March 9, 2010

Como se apaixona?

O que é a paixão, como ela funciona? O que é certo, errado? Tantas pessoas passam pela nossa vida, algumas nos deixam quase sem ar para respirar de tanto sentimento que entregamos de olhos fechados. Aquela pessoa que você nunca imaginava conhecer e se apaixonar. Pessoa que você nem conhece direito, não para de pensar. Vai contra todas as possibilidades. E você acaba com um coração em miséria. Mas porque não nos apaixonamos pela pessoa certa? Aquele cara legalzinho. Aquele cara que tem os mesmos ideiais que você. A platônica fusão de duas vidas. Com esse não tem química, não tem papo. O que desperta os sentimentos, o que causa as trocas bioquímicas no corpo das pessoas? Pensar em uma pessoa, sonhar com ela, ansear por um momento a sós. E quando acontece, não acontece nada. Não existe uma tecla "on/off" da paixão. Entretanto alguma coisa engatilha a paixão. E nós não sabemos o que é... E se fosse possível... Sinceramente, eu não ia querer saber.

Monday, March 8, 2010

Uma casa vazia

Uma casa vazia tem uma certa beleza, uma ansiedade. É como se o vazio todo saltasse ao seus olhos de uma maneira tão instantânea, tão automática. O som dos seus passos, das vozes, a curiosidade de ver o que é aquele lugar. Casas são feitas para serem preenchidas, com pessoas, móveis. Em um lar acontecem tantas coisas, mudanças silenciosas de vidas inteiras. Em uma casa pessoas passam noites em claro perdidas em seus pensamentos, derramando lágrimas. Uma casa vazia parece um ser humano. Uma pessoa com lugar pra tanto. Pronta, com um tanto espaço no coração para ser usado. Uma casa não foi feita pra ser um espaço aberto. Não foi feita pra não ter luz, não ter aconchego e vida. Um ser humano tem um universo inteiro de si mesmo para compartilhar com outro. Como abrir a porta de um lugar inóspito, tão massacrado por tempestades, vendavais? Como escancarar as janelas de um lar sendo sustentado por estruturas falhas? Abrir o coração e mostrar a verdade... Os monstros escondidos nas frestas. As faltas de acabamento. Marcas de outros moradores. O que é pior que o desconforto de abrir portas antigas? A dor da solidão de tanto tempo em seclusão.